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A crise que abalou a siderurgia



Setor viveu crise histórica em 2016. Retomada tímida é esperada para 2017 na esteira da recuperação de outras indústrias.

A indústria siderúrgica brasileira viveu em 2016 a pior crise de sua história. Pressionada pelo fraco desempenho da economia brasileira, pela queda na demanda doméstica do aço, somada à persistente entrada do aço chinês, o setor teve pouca chance de se recuperar do já crítico ano de 2015.

Dono do maior parque industrial siderúrgico da América do Sul, o Brasil possui capacidade instalada para produzir cerca de 49 milhões de toneladas de aço bruto por ano. Entretanto, em 2016, as siderúrgicas não passaram dos 30,2 milhões, uma queda de 9,2% em comparação ao ano anterior; enquanto a produção de laminados totalizou 20,9 milhões de toneladas, retração de 7,7% comparada a 2015.

Entre janeiro de 2014 e junho de 2016, a crise que assolou o setor levou a paralisação ou a desativação de 83 unidades produtivas. Mais de 40 mil postos de trabalho foram fechados e, no mesmo período, investimentos da ordem de US$ 3,2 bilhões foram adiados, segundo levantamento do Instituto Aço Brasil.

“A crise se instalou sorrateira. Os preços da indústria siderúrgica na China, Europa, Estados Unidos, em cinco anos, caíram para a maioria dos produtos. Também tivemos forte redução do consumo, consequência da crise de 2008 e 2009 nos Estados Unidos e Europa”, avalia Luiz Francisco Caetano, analista de investimento da Planner Corretora. “Essa crise também foi prevista por muitos anos com as exportações chinesas de aço. Todos viram a China crescer sua capacidade de produção e no primeiro momento que a demanda interna deles diminuiu, eles passaram a exportar cada vez mais e isso abalou diversos mercados do mundo”, completa.

HEGEMONIA CHINESA
O gigante asiático é responsável por maior parte do excedente de capacidade instalada de aço no mundo. Dos cerca de 780 milhões disponíveis atualmente, 400 mi lhões são de origem chinesa. O país detém o título de maior produtor mundial há mais de uma década. Em 2003, produziu 220 milhões de toneladas de aço. E em 2016, concluiu o ano com 808 milhões de toneladas produzidas, de acordo com a World Steel Association. O segundo maior produtor mundial não chega nem ao seu encalço – no caso, o Japão, com 104 milhões de toneladas fabricadas em 2016.

Com o excesso, a China vende a preços mais baixos no mercado internacional, algo que tem desafiado não só o Brasil, mas indústrias no mundo todo a ponto de ser pressionada pela Europa a diminuir o excesso de produção da commodity. Em setembro do último ano, durante a reunião do G-20, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, afirmou que o monitoramento global do parque produtivo de aço do tigre asiático era fundamental para o equilíbrio da produção.

As exportações chinesas de aço, que em 2015 atingiram mais de 110 milhões de toneladas, chegaram em 2016 ao nível de 115 milhões. Como aponta o Instituto Aço Brasil, em 2000 a China participava com 1,3% das importações diretas de aço para o Brasil. Em 2015, essa participação saltou para 50,2%.

“É contra essa concorrência predatória que os governos de vários países estão lutando com diferentes medidas de defesa comercial. É fundamental que o governo brasileiro invista em mecanismos de defesa comercial ágeis e eficazes, não reconheça a China como economia de mercado e contribua para o aumento da competitividade da indústria brasileira de transformação”, exige a Aço Brasil.

Entretanto, a China deve pressionar ainda mais o governo brasileiro neste ano, tendo em vista que desde o dia 11 de dezembro de 2016 o país asiático recebeu o direito de ser reconhecido pelos membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) como economia de mercado.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também se posicionou contra o reconhecimento imediato da China, alegando que a nação pratica dumping, quando subsídios mantêm os preços dos produtos artificialmente baixos.

Entre as 156 medidas antidumping atualmente em vigor no Brasil, a China é alvo de 52, um terço do total. Em seguida, vêm os EUA, com 14, e a Coreia do Sul, com dez.

PROTECIONISMO
Do outro lado, os Estados Unidos também tem intimidado o Brasil ao adotar medidas que prejudicam as exportações brasileiras para proteger as suas próprias usinas siderúrgicas. Para o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, uma série de companhias têm violado regras antidumping no mercado norte-americano de aços planos. Como saída, o país resolveu impor sobretaxas contra produtos de vários países, incluindo os do Brasil.

Em novembro de 2016, o Brasil entrou com pedido de consultas sobre as ações norte-americanas junto a Organização Mundial do Comércio (OMC), questionando as sobretaxas aplicadas às exportações em questão.

“As medidas impostas pelos EUA resultaram, na prática, em fechamento do mercado ao aço laminado brasileiro em um dos principais destinos de exportação desse produto, com prejuízos importantes para o setor”, afirmou o Itamaraty em comunicado à imprensa na ocasião. O ministério acrescentou que antes da aplicação das sobretaxas, as exportações brasileiras para os EUA representavam cerca de US$ 250 milhões por ano.

A sombra nas exportações brasileiras pelo mercado norte-americano é reforçada com “a era Trump”, acreditam analistas do setor. O presidente americano, Donald Trump, tem dado constantes indícios que endurecerá cada vez mais a entrada de produtos estrangeiros no país.

Por outro lado, observa Caetano, a expectativa de que o novo presidente norte-americano invista fortemente em infraestrutura – algo que demandaria produtos e serviços – fez com que ações de algumas empresas do setor se valorizassem. “Certamente, se os EUA investir pesado em infraestrutura, a demanda por aço não só para a indústria americana, mas ao redor do mundo, deve crescer e isso, com certeza, é positivo”.

EFEITO DOMINÓ
A redução drástica nas atividades dos principais setores consumidores de aço – compostos pela indústria de bens de capital, construção civil e o setor automotivo, que representam cerca de 80% da demanda interna do aço no País – desestabilizaram a siderurgia brasileira.

“Quando a gente olha os números de demanda do aço como um todo, observamos essa crise há alguns anos acompanhando muito o desempenho dos principais setores consumidores. Observamos, principalmente, desde o segundo semestre de 2015, uma queda mais aguda dos investimentos no País com destaque para o setor de construção civil e bens de capital, que foi agravada tanto pela crise de confiança do empresariado e pelas incertezas no campo político, quanto pelos desdobramentos da operação Lava Jato”, avalia Felipe Beraldi, economista e analista especializado em Mineração e Siderurgia da Tendências Consultoria.

“É um efeito dominó. Você cria um declínio por razões próprias da indústria consumidora do aço. E, claro, essas indústrias são grande empregadoras nas suas regiões e sem contar que todas elas, como qualquer grande setor, têm indústrias periféricas ao redor que também caem quando elas sofrem. A indústria siderúrgica, com certeza, colaborou com a queda da produção industrial global e a queda do PIB no país”, ressalta Caetano.

Além dos próprios entraves vividos pelo mercado nacional e internacional, investigações e disputas internas também minaram a estabilidade das siderúrgicas brasileiras. Em maio de 2016, executivos da Gerdau, maior produtora de aços longos do País, foram indiciados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Zelotes, que investiga esquema de pagamento de propina para resolver pendências com o fisco.

Enquanto isso, a produtora de tubos de aço V&M do Brasil, da francesa Vallourec, foi citada na Operação Lava Jato junto com a Confab, acionista da Usiminas. Já a siderúrgica mineira tem vivido intensa disputa societária entre seus dois principais acionistas Nippon Steel & Sumitomo Metal e a Ternium/ Techint, em voga há quase três anos.

Mesmo diante de um cenário crítico, as ações das principais siderúrgicas no País voltaram a subir no final de 2016. Até novembro último, as ações da CSN tinham subido 136% no ano e as preferenciais de classe A da Usiminas acumulavam ganhos de 135%. Foram as duas maiores altas do Ibovespa, o principal índice, em 2016. A Gerdau viu seus papéis preferenciais avançarem 91%. Já sua controladora, Metalúrgica Gerdau, figura no terceiro lugar de principais ganhos do índice, com 110%.

“No ano passado, em alguns casos pontuais, tanto as ações da Vale quanto da Gerdau foram beneficiadas, principalmente, por conta de uma valorização pontual de preço tanto do minério de ferro, quanto do aço. Esse foi um movimento pontual que a gente viu, principalmente, no segundo semestre de 2016, que acabou tendo um efeito positivo para as companhias nacionais”, explica Beraldi.

RETOMADA POSSÍVEL, PORÉM TÍMIDA
Para analistas do mercado, a valorização das ações das siderúrgicas é um indício de que o setor deve começar a se recuperar a partir de 2017, apesar da indústria ainda demonstrar cautela ao prever crescimento.

A perspectiva é de que as vendas internas sejam 3,6% maiores do que em 2016, totalizando 16,9 milhões de toneladas, segundo o Instituto Aço Brasil. O consumo aparente deve atingir 18,5 milhões de toneladas, uma alta de 3,5% se comparado ao ano anterior.

A entidade é firme ao dizer que a saída para salvar o setor siderúrgico no País é a exportação da commodity. Atualmente, o Brasil exporta aço para mais de 100 países.

“Com o mercado interno ainda muito enfraquecido, o único caminho para crescimento no curto prazo é a exportação. Para isso, o setor do aço precisa de isonomia competitiva, proporcionada pela compensação dos tributos não recuperáveis das exportações e redução dos custos de financiamento que elevam o Custo Brasil. A solução parcial no curto prazo é a elevação da alíquota do Reintegra para 5%, uma vez que a falta de competitividade da indústria brasileira do aço contribui para o desempenho cada vez pior das exportações”, defende.

Entretanto, analistas lembram que a exportação do produto também encontra difi culdades devido a medidas protecionistas de outros mercados, além do excedente de aço no mundo. “É possível segurar as importações via um conjunto de ações antidumping. Mas a questão fica totalmente diferente quando diz respeito às exportações. Os outros países também estão tomando ações antidumping e encontramos o aço chinês competindo com o nosso. A decisão de exportar não é uma decisão que se efetiva de forma simples, porque precisa de alguém querendo comprar o seu aço. E nós vimos isso recentemente. As empresas saíram para exportar conscientes de que a margem era mínima. Elas o faziam para manter os seus fornos funcionando”, explica Luiz Francisco Caetano, da Planner Corretora.

Mesmo em um cenário de crise, as siderúrgicas promoveram aumentos de preços em 2016 e já o fazem para 2017, com um aumento entre 8,5% e 9,5% para laminados a quente e a frio. “Para esse ano, acho que estamos começando com expect a t i vas melhores, principalmente depois das altas de preços que tivemos em 2016. Toda a indústria parte de uma base mais lucrativa, os preços estão melhores”, pontua Caetano.

Na contramão da recessão, grandes empresas siderúrgicas deram início a suas operações. Foi o caso da Companhia Siderúrgica do Pecém, localizada estrategicamente no Porto do Pecém, no Ceará. Com acesso a incentivos fi scais para 80% da produção voltada à exportação, a companhia deve conseguir se manter competitiva nos próximos anos. Outro grande nome do setor a iniciar suas atividades no País foi a russa NLMK Group, com abertura de escritório comercial em São Paulo e unidade de logística em São Francisco do Sul, Santa Catarina. Segundo Paulo Seabra, diretor geral da NLMK para América do Sul, a decisão de entrar no Brasil já estava tomada mesmo antes da crise se estabelecer.

“A crise apenas nos fez tomar as devidas ações para ajustar a operação ao atual cenário, pois no longo prazo o Brasil ainda é visto como uma economia viável na qual a NLMK quer estar presente tanto por tamanho, por estar entre as 10 maiores economias do mundo, como devido haver um crescente interesse em aços especiais que é a grande expertise do nosso grupo”, diz Seabra.

Para o execut ivo, 2017 cont i – nuará sendo um ano desafiador para o mercado siderúrgico, com a expectativa do início de uma tímida recuperação a partir do segundo semestre. “Nossa meta para 2017 é repetir o crescimento de 30% realizado no ano passado, ampliar nossa base adicionando 50 novos clientes e aumentarmos em mais três o número de mercado do qual participamos.”

Para Felipe Beraldi, da Tendências Consultoria, uma recuperação sólida do setor se dará somente em 2018. “De modo geral, a gente espera uma recuperação discreta da demanda doméstica, principalmente aí com maiores impactos na melhora da confi ança do empresariado e dos consumidores sobre a atividade econômica brasileira, mas uma recuperação mais forte tanto da demanda, quanto da produção siderúrgica é mais esperada a partir de 2018, com um destaque para a volta dos investimentos em infraestrutura no país”.

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